Eles Querem Voltar

Agosto 11, 2009

Mário Crespo sobre as lista de Manuela Ferreira Leite

Os comediantes

Mário Crespo

Ao pedir a um cunhado médico que lhe engessasse o braço antes de uma prova judicial de caligrafia que o poderia incriminar, António Preto mostrou ter um nervo raro. Com este impressionante número, Preto definiu-se como homem e como político. Ao tentar impô-lo ao país como parlamentar da República, Manuela Ferreira Leite define-se como política e como cidadã. Mesmo numa época de grande ridículo e roubalheira, Preto distinguiu-se pelo arrojo e criatividade. Só pode ter sido por isso que Manuela Ferreira Leite não resistiu a incluir um derradeiro arguido na sua lista de favoritos para abrilhantar um elenco parlamentar que, agora sim, promete momentos de arrebatadora jovialidade em São Bento.
À tribunícia narrativa de costumes de Pacheco Pereira e à estonteante fleuma de João de Deus Pinheiro, vai juntar-se António Preto com o seu engenho e arte capazes de frustrar o mais justiceiro dos investigadores. Se alguma vez chegar a ser intimado a sentar-se no banco dos réus, já o estou a ver a ir ter com o seu habitual fornecedor de imobilizadores clínicos para o convencer a fazer-lhe um paralisador sacro-escrotal que o impeça de se sentar onde quer que seja, tribunal ou bancada parlamentar.
Se o convocarem para prestar declarações, logo aparecerá com um imobilizador maxilo-masséter-digástrico que o remeterá ao mais profundo mutismo, contemplando impávido com os olhos divertidos de profundo humorista os esforços inglórios do poder judicial para o apanhar, enquanto sorve, por uma palhinha apertada nos lábios, batidos nutritivos com a segurança dos imunes impunes.
Em dramatismo, o braço engessado de Preto destrona os cornos de Pinho. Com esta escolha, Manuela Ferreira Leite veio lembrar-nos que também há no PSD comediantes de grande calibre capazes de tornar a monotonia legislativa no arraial caleidoscópico de animação que está a fazer do Canal Parlamento um conteúdo prime em qualquer pacote de Cabo.
Que são os invulgares familiares de José Sócrates, o seu estranho tio ou o seu temível primo que aprende golpes de mão fatais na China, quando comparados com um transformista que ilude com tanta facilidade a perícia judiciária? António Preto é mesmo melhor que Vale e Azevedo em recursos dilatórios e excede todos os outros arguidos da nossa praça com as suas qualidades naturais para o burlesco melodramático.
Entre arguidos, António Preto é um primo inter pares. Ao fazer tão arrojada escolha para o elenco político que propõe ao país como solução para a nossa crise de valores, Manuela Ferreira Leite só pode querer corrigir a percepção que o eleitorado possa ter de que ela é uma cinzentona sem espírito de humor e que o seu grupo parlamentar vai ser o nacional bocejo.
A líder social-democrata respondeu às marcantes investidas de Pinho com as inimitáveis braçadas de Preto. Arguidos na vida política há muitos, mas como António Preto há só um. Quem o tem, tão fresco e irreverente como na primeira investigação judicial, é Manuela Ferreira Leite e o seu PSD. Karl Marx, na introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, escreve que “a fase final na história de um sistema político é a comédia”. Com estas listas do PSD e com a inspiração guionística de António Preto, Ferreira Leite está a escrever o último acto.

no Jornal de Notícias.

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Julho 9, 2008

Sócrates e Manuela

No Expresso, por Fernando Madrinha:

 

Num país dado ao pessimismo e à depressão, o discurso derrotista é o que vai melhor com a quadra. Tem audiência e aplauso garantidos, à esquerda e à direita, servindo às mil maravilhas para incendiar debates televisivos, ou alimentar greves e manifestações. Pelo contrário, palavras como “coragem”, “ânimo” e “energia”, usadas por José Sócrates, não caem bem por estes dias. O que está a dar é o bota-abaixismo e desesperança, seja na boca dos líderes da oposição seja na de alguns ‘gurus’ que nos aparecem nas televisões ao serão a anunciar o apocalipse para a manhã seguinte.

Esta semana tivemos, em duas grandes entrevistas, as duas atitudes opostas. Na TVI, Manuela Ferreira Leite traçando um retrato negro do país, sem adiantar perspectivas nem propostas que possam mudá-lo. Na RTP, José Sócrates, assumindo as “grandes dificuldades” que aí estão, anunciando algumas medidas, necessariamente insuficientes, para apoiar sectores mais frágeis da sociedade, mas mostrando-se seguro das suas opções e procurando transmitir confiança ao país.

A atitude da nova líder do PSD, carregada de um pessimismo sem saída, é a que vai melhor com o ar do tempo. A de José Sócrates corre ao arrepio, prestando-se aos clássicos comentários sobre o desacerto entre o discurso e a realidade. E, no entanto, é o primeiro-ministro que está certo, fazendo o que se espera de um líder político numa situação de crise: que não se renda à adversidade e se esforce por tentar vencê-la.

Dir-se-á que Manuela Ferreira Leite também cumpre o seu papel, pois, se quer substituir Sócrates dentro de um ano, tem que pintar a situação com as cores mais negras. Mas se uma promitente chefe do Governo vem dizer que o país não tem dinheiro para nada; se pede a revelação de estudos que, pelos vistos, são públicos; se sugere o cancelamento de obras – quando as obras são, por si mesmas, geradoras de emprego, de riqueza e até vêm aprovadas por outros governos, incluindo um de que fez parte; se é incapaz, por fim, de uma palavra de esperança, o que está a dizer é que o país não tem presente nem futuro. E dizendo isso sem acrescentar propostas alternativas está a negar-se a si mesmo enquanto alternativa.

A entrevista de Manuela Ferreira Leite à TVI era, no fundo, a sua apresentação pública como presidente do PSD. Precisava de ganhar na comparação com Sócrates – o que não aconteceu -, ou, pelo menos, de causar uma boa impressão nessa primeira grande oportunidade. Até porque, como é sabido, por vezes não há segunda.

TGV ou aeroporto?
Não sei se Lisboa precisa de um aeroporto maior. Mas se há 40 anos que o assunto é debatido por técnicos e políticos de todas as cores, presumo que não andaram a discutir o sexo dos anjos. Só para arranjarem uns negócios chorudos para as empresas de obras públicas. De igual modo, nada sei sobre comboios. Por isso não posso jurar que o TGV se justifica plenamente, ou que, pelo contrário, é um investimento inútil. Só para agradar aos novos-ricos e aos lóbis interessados na sua construção.

O que sei, porque está à vista de todos, é que os preços dos combustíveis não vão parar de subir – podem até baixar conjunturalmente, mas nunca para os valores de há um ano ou daí para trás. Pela simples razão de que o petróleo já mal chega para as encomendas e chegará cada vez menos. Ora, o delírio dos preços não pode deixar de ter efeitos ruinosos no transporte aéreo, como já se está a ver com a TAP e com a generalidade das companhias. As próprias «low-cost» passarão, em breve, a «high-cost» ou à falência. E até que se encontrem substitutos para os hidrocarbonetos, é muito provável que viajar de avião, assim como viajar de automóvel a gasolina ou gasóleo, volte a ser o luxo de há 30 anos ou 20.

Ora, o comboio – e especificamente o de alta velocidade – apresenta-se como uma alternativa ao avião, válida e de futuro, dentro de cada continente. Daí não se perceber bem por que é que, entre os que contestam as grandes obras anunciadas, o TGV aparece como a primeira a abater. Mais depressa se compreenderia o finca-pé no adiamento do novo aeroporto. Afinal, se a procura do avião diminuir, como tudo parece indicar, a Portela pode servir por muitos mais anos do que aqueles que os peritos calcularam numa situação global completamente diferente da que hoje vivemos. Mas isto, claro está, é o que ocorre a quem nada sabe de aeroportos e TGV. Nem de certas campanhas políticas desencadeadas para eleitor ver.

Esclarecimento do MAI
A propósito do comentário, nesta página, sobre a agressão a dois juízes no tribunal de Santa Maria da Feira, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, esclareceu que se encontravam na sala de audiências sete membros das forças de segurança e, fora da sala, mais nove. Muitos, realmente. Detiveram imediatamente os agressores e identificaram os que proferiram as injúrias. Pergunta Rui Pereira que mais se poderia exigir do MAI, sendo certo que, nos termos da lei, os réus devem ser presentes ao tribunal “livres nas suas pessoas”. E que compete aos juízes inverter esta regra quando entendam haver razões de segurança que o justifiquem – iniciativa que eram livres de tomar e não tomaram. Nestas circunstâncias, impõe-se registar que a crítica ao MAI não tinha razão de ser.

 

 

 

Julho 7, 2008

Tiro no Pé

No Expresso:

Uma vez eleita presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite remeteu-se ao silêncio. Nem uma ideia, uma só, para que ficássemos a saber ao que vinha. Já no congresso, começou com palavras de circunstância, daquelas que não adiantam nem atrasam. E o país à espera. Mas o final foi empolgante. Mais do que uma ideia, surgiu uma bomba: o Governo promove investimentos errados, que devemos travar de imediato, canalizando os recursos para acções sociais. Palmas. Abraços. Delírio. E agora?

Que a decisão sobre investimentos públicos é assunto sério, estamos todos de acordo. Que sucessivos governos, do PS e do PSD, misturaram investimentos sensatos com outros desinteressantes, também é mais ou menos consensual. Eu próprio dei aqui exemplos de escolhas más: os estádios do euro, hoje às moscas, e as famosas rotundas, de que as autarquias não prescindem. Também não gosto de algumas rodovias que estão previstas. Falta a tudo isto algo a que chamo ‘efeito multiplicador’.

Num outro plano, se compararmos o investimento nacional com o dos nossos principais parceiros, as conclusões são idênticas. Um exemplo: na última década, em termos médios, Portugal investiu 25-26% da riqueza produzida, enquanto a União Europeia não foi além de uns 19-20%. Mas, no mesmo período, em rendimento “per capita” e para uma União igual a 100, Portugal caiu de 78 para 73. É óbvia a leitura: não basta investir muito, é preciso investir bem. Nós investimos mal.

Mas vamos ao que importa: em matéria de investimentos, que política tem seguido este Governo? Respondo com o quadro anexo: o investimento global, em termos de PIB, tem vindo sistematicamente a cair e está hoje em linha com a média europeia, e o investimento público, mesmo a preços correntes, é hoje mais baixo do que em 2003, ano de recessão. Ou seja: se há críticas a fazer é no sentido de que ele investiu de menos, não de mais. As malditas contas públicas não lhe deixaram alternativa.

Já sei que o que conta é o futuro, não o passado. Mas era importante dizer isto. De qualquer modo, fui consultar o PEC 2007-11, validado por Bruxelas e que o Governo está a seguir. E o que é que encontrei? Os investimentos a incluir no orçamento deverão seguir o ritmo dos anos anteriores, crescendo menos do que o próprio PIB, porque todos os outros serão financiados com capitais comunitários e/ou parcerias público-privadas. Acho pouquíssimo. E a bomba, afinal, não passou de um tiro no pé.

Mas se tudo é assim tão simples, que investimentos são esses que tanto perturbam a actual líder do PSD? As auto-estradas? O aeroporto? A travessia sobre o Tejo? O TGV?… Desistimos de todos eles? Só de alguns? Quais? Esperei pela última entrevista à TVI. E não posso queixar-me da entrevistadora, que perguntou, perguntou, perguntou. Eis a resposta: não é nenhum em particular; são todos esses investimentos ‘astronómicos’ que o Governo quer fazer e para os quais não tem dinheiro. “Voilà”.

Juro que me custa dizer isto. Mas tem de ser. Sobre um assunto tão delicado, Manuela não disse nada. Só falou.

Daniel Amaral

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